Neste 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, dados inéditos do Censo 2022 colocam a Bahia no centro de um debate urgente sobre inclusão, saúde pública e educação.
A Bahia é o quarto estado brasileiro com maior número de pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os dados são do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e revelam uma realidade que precisa de mais atenção do poder público e da sociedade.
Ao todo, 144.928 baianos vivem com diagnóstico de autismo, o que representa 1% da população do estado. Em números absolutos, a Bahia fica atrás apenas de São Paulo, com 547.545 pessoas diagnosticadas, Minas Gerais, com 228.557, e Rio de Janeiro, com 214.637. No cenário nacional, o Brasil contabiliza 2.405.337 pessoas com TEA, o equivalente a 1,2% da população total.
Um dado que chama atenção: apesar do grande volume absoluto de diagnósticos, a proporção de pessoas com autismo na população baiana é a menor do país, representando 1,0% dos habitantes, índice igual ao de Tocantins e abaixo da média nacional. Isso indica que a Bahia ainda tem um expressivo subdiagnóstico — ou seja, muitas pessoas que vivem com o TEA, mas que nunca foram atendidas por um profissional de saúde especializado.
Onde estão essas pessoas na Bahia?
O IBGE identificou pessoas com autismo nos 417 municípios baianos. Salvador lidera em números absolutos, com 28.915 diagnósticos, seguida por Feira de Santana, com 6.555, e Vitória da Conquista, com 3.686. Já em proporção à população local, os municípios de Mirante (2,6%), Capim Grosso (2,2%) e Morpará (1,9%) registram as maiores taxas do estado.
O perfil de quem vive com TEA no estado
Os dados do Censo traçam um perfil claro da população autista baiana. Seis em cada dez pessoas diagnosticadas com autismo na Bahia são homens, o que representa 86.126 pessoas. Entre as mulheres, o número é de 58.802. Essa diferença também é observada em âmbito nacional, onde a prevalência foi maior entre os homens, com 1,5%, contra 0,9% entre as mulheres.
Três em cada dez pessoas com diagnóstico de autismo na Bahia eram crianças ou adolescentes de até 14 anos — 34,4% do total, ou 49.920 pessoas em números absolutos. A faixa etária mais afetada é a de 5 a 9 anos, em que 2,1% das crianças baianas tinham diagnóstico de TEA em 2022.
Escola: um direito que ainda não é igual para todos
Um dos dados mais preocupantes diz respeito à educação. A taxa de frequência escolar entre crianças de 6 a 14 anos com autismo é de 93,1%, enquanto na população geral essa proporção chega a 98,4%. A diferença pode parecer pequena, mas representa milhares de crianças fora das salas de aula — em uma fase determinante para o desenvolvimento.
A situação se agrava entre os jovens. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos com TEA, apenas 71,9% frequentam a escola, ante 85,8% da população geral na mesma faixa etária. E os reflexos se arrastam pela vida adulta: entre pessoas com 25 anos ou mais diagnosticadas com autismo, 60,2% não têm instrução ou não concluíram o ensino fundamental — índice muito superior ao da população geral, que é de 44,4%.
Um Censo histórico e o que ainda falta
Este é o primeiro levantamento nacional a trazer dados específicos sobre o autismo no Brasil. A inclusão do quesito no Censo foi determinada pela Lei 13.861/2019, que exige a presença do tema nos recenseamentos demográficos — uma conquista do movimento autista brasileiro, que lutou durante anos por visibilidade nos dados públicos.
Para especialistas, o diagnóstico ainda chega tarde para muitas famílias, e a grande maioria das crianças de classes sociais mais baixas que são diagnosticadas estão sem tratamento, por falta de vagas. Apesar disso, quem busca atendimento na Bahia pode contar com a rede pública: pelo Sistema Único de Saúde (SUS), é possível acessar assistência especializada e acompanhamento multidisciplinar, fundamentais para o desenvolvimento e a qualidade de vida das pessoas no espectro.
Neste Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, os números falam por si e cobram respostas à altura.
